RELAÇÃO NEUTRÓFILO-LINFÓCITO BASAL E SUA VARIAÇÃO APÓS TERAPIA NEOADJUVANTE TOTAL COMO PREDITORES DE RESPOSTA PATOLÓGICA COMPLETA EM PACIENTES COM ADENOCARCINOMA DE RETO LOCALMENTE AVANÇADO: ESTUDO DE COORTE RETROSPECTIVO UNICÊNTRICO
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Resumo
O câncer colorretal está entre as neoplasias mais incidentes no mundo e segue como importante causa de mortalidade por câncer. Nesse cenário, o adenocarcinoma de reto apresenta particularidades anatômicas, biológicas e terapêuticas que exigem abordagem específica, sobretudo nos casos localmente avançados, definidos por invasão transmural (cT3-cT4) e/ou acometimento linfonodal regional (cN ), na ausência de metástases à distância. O manejo do câncer de reto localmente avançado evoluiu para estratégias multimodais com quimioterapia, radioterapia e cirurgia com intenção curativa. Entre elas, a terapia neoadjuvante total (TNT) ganhou destaque por antecipar a quimioterapia sistêmica para o período pré-operatório, associada ou não à radioterapia, visando melhorar o controle local e sistêmico. Ensaios randomizados como RAPIDO e PRODIGE-23 mostraram aumento das taxas de resposta patológica completa (pCR), redução de metástases à distância e potencial benefício em desfechos oncológicos. A resposta patológica completa, definida como ausência de tumor viável na peça cirúrgica (ypT0N0), é um marcador prognóstico relevante, associado a melhores taxas de sobrevida global e sobrevida livre de doença. Sua predição também tem implicações clínicas importantes, pois pode subsidiar estratégias de preservação de órgão, como o manejo não operatório (?watch and wait?), com menor morbidade cirúrgica e preservação da qualidade de vida em pacientes selecionados. Apesar desses avanços, permanece limitada a capacidade de identificar quais pacientes alcançarão pCR após TNT. Métodos clínicos, endoscópicos e radiológicos têm limitações de acurácia, reprodutibilidade e padronização, o que estimula a busca por biomarcadores acessíveis, reprodutíveis, de baixo custo e aplicáveis à prática clínica. Entre esses marcadores, destaca-se a relação neutrófilo-linfócito (neutrophil-to-lymphocyte ratio, NLR), derivada de exames laboratoriais rotineiros. A NLR reflete, de forma indireta, a interação entre tumor e sistema imune, expressando o equilíbrio entre inflamação pró-tumoral, associada aos neutrófilos, e resposta imune antitumoral, mediada pelos linfócitos. Valores elevados podem indicar inflamação sistêmica exacerbada e imunossupressão relativa, condições associadas a pior prognóstico em diversas neoplasias, inclusive no câncer colorretal. Embora estudos prévios tenham relacionado NLR elevada a piores desfechos oncológicos, os resultados são heterogêneos, especialmente no contexto atual da TNT. Além disso, a maioria das investigações avalia apenas a NLR basal, havendo escassez de estudos sobre sua dinâmica durante o tratamento. A análise da variação da NLR entre o pré-tratamento e o período pós-neoadjuvante pode fornecer informação adicional, por refletir não só o estado inflamatório inicial, mas também a resposta biológica ao tratamento. Diante disso, este estudo tem como objetivo avaliar a associação entre NLR basal, NLR após TNT e sua variação ao longo do tratamento com a ocorrência de pCR em pacientes com adenocarcinoma de reto localmente avançado. Secundariamente, pretende-se analisar a influência de variáveis clínicas, demográficas e anatomopatológicas na resposta terapêutica e explorar o desempenho discriminatório da NLR como biomarcador preditivo. Trata-se de estudo observacional, analítico, retrospectivo e unicêntrico, com revisão de prontuários eletrônicos de pacientes atendidos no Hospital São Paulo/UNIFESP entre janeiro de 2019 e dezembro de 2024. Serão incluídos adultos com diagnóstico histopatológico confirmado de adenocarcinoma de reto médio ou baixo, localmente avançado (cT3-cT4 e/ou cN ), submetidos à TNT seguida de cirurgia com intenção curativa. A variável principal será a NLR, calculada pela razão entre a contagem absoluta de neutrófilos e linfócitos obtidos antes do início da neoadjuvância (T0) e após sua conclusão, no período pré-operatório (T1). A variação relativa será calculada pela fórmula: (NLR T1 - NLR T0) / NLR T0. O desfecho primário será pCR (ypT0N0). Como desfecho secundário exploratório, será analisada a sobrevida livre de doença. A análise estatística incluirá descrição das variáveis, comparação entre pacientes com e sem pCR, regressão logística univariada e multivariada, curvas ROC com cálculo da área sob a curva e, para sobrevida, curvas de Kaplan-Meier e modelos de Cox, quando aplicável. Espera-se que valores mais baixos de NLR basal e redução da NLR ao longo do tratamento estejam associados a maior probabilidade de pCR, e que a variação desse marcador tenha melhor desempenho preditivo do que sua avaliação isolada. Caso confirmada, a NLR poderá contribuir para a estratificação de risco e a individualização terapêutica em pacientes com câncer de reto localmente avançado, inclusive na seleção de candidatos à preservação de órgão. Assim, o estudo poderá ampliar a compreensão do papel da inflamação sistêmica na resposta tumoral e fortalecer modelos preditivos aplicáveis à prática oncológica.
