Congresso UNIFESP 2026
PÓS-GRADUAÇÃO (stricto sensu)CIÊNCIAS HUMANAS, ARTES, JORNALISMO E INFORMAÇÃOTrabalho #23175

A COMMEDIA DE DANTE ALIGHIERI: PERCURSOS DE UMA TRADIÇÃO INTERPRETATIVA

Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (Guarulhos)
ODS 4

Autores

AMANDA BORBA PAITAX - AUTOR(A)CASSIO DA SILVA FERNANDES - ORIENTADOR(A)

Resumo

A compreensão da providência divina, conforme a doutrina cristã, concedeu ? e ainda concede aos fiéis ? a consciência de que, para além da fé e da devoção, existe o livre-arbítrio individual e de que é a partir das decisões tomadas em vida, segundo esse princípio, que a alma será salva ou condenada pela eternidade no dia do Juízo Final. Tal concepção, durante o Medievo, foi intensamente reforçada através da Comédia (c.1321), poema de Dante Alighieri (1265-1321) que narra a jornada do próprio poeta ao pós-vida cristão, isto é, ao Inferno, ao Purgatório e ao Paraíso. No percurso, o poeta ? que se torna também protagonista da narrativa ? é guiado pelos nove círculos do abismo infernal e pelos sete terraços do Purgatório por Virgílio (70 a.C-19 a.C), poeta da Antiguidade e autor da Eneida (19 a.C), e, no Paraíso, por Beatriz, sua falecida amada. Ao longo da jornada, Dante encontra almas oriundas de diferentes épocas ? históricas, literárias, passadas e contemporâneas ? distribuídas pelas três regiões da eternidade. Ao posicioná-las em localidades específicas, sobretudo no Inferno, onde cada pecado encontra a punição que lhe corresponde, Dante assume também a função de juiz moral, atribuição até então reservada exclusivamente a Deus na tradição cristã. A publicação integral do poema ocorreu pouco tempo após a morte do poeta, ainda em 1321, e rapidamente passou a circular por amplos setores da sociedade italiana, sobretudo em razão de sua composição em língua vernácula. Em virtude da complexidade estrutural da obra, bem como pela intensa presença de alusões teológicas, filosóficas e referências à Antiguidade clássica, não tardaram a surgir intérpretes e comentaristas do poema, cujo número se tornou expressivo já entre os séculos XIV e XVI. A tradição exegética da obra, contudo, jamais se interrompeu: ao longo dos séculos, estudiosos continuaram a propor leituras, hipóteses e abordagens críticas acerca da Comédia, processo que se estende até a contemporaneidade. Partindo dos primeiros comentadores dantescos ainda no século XIV e avançando até a fortuna crítica recente, o trabalho concentrará sua atenção nas tradições hermenêuticas que se dedicaram à Comédia ao longo do tempo, examinando permanências, dissidências e reformulações interpretativas presentes nas abordagens medievais, renascentistas e posteriores. Recorrendo a documentos históricos acessíveis e aos estudos analíticos relacionados ao poema e ao poeta, pretende-se investigar de que maneira horizontes histórico-culturais diversos orientaram as formas de leitura da obra, bem como os sentidos atribuídos à jornada dantesca em diferentes períodos. À vista disso, será investigada a possibilidade ? ou impossibilidade ? de leitura do poema a partir das quatro chaves interpretativas tradicionalmente associadas ao texto bíblico ? literal, alegórico, moral e anagógico ? referenciadas na Epístola a Cangrande della Scala, documento tradicionalmente atribuído ao próprio Dante Alighieri e endereçado a Cangrande I della Scala (1291-1329), seu amigo e protetor em Verona. Desse modo, busca-se refletir sobre a densidade de uma obra que, desde o princípio, tensionou a conjuntura intelectual, política e cultural de seu entorno, tendo sido escrita durante o exílio político de um poeta que posteriormente tornar-se-ia cânone não apenas da literatura italiana, mas também da própria herança cultural de Florença, cidade natal do poeta, da qual permaneceu apartado por quase duas décadas, até sua morte. Assim, longe de pretender alcançar conclusões definitivas, o percurso investigativo procurará evidenciar que a Comédia permanece como uma obra de estrutura e conteúdo inesgotáveis, fascinante tanto pelo que se tornou ao longo dos séculos ? em grande medida também pela força de sua tradição exegética ?, quanto pelas possibilidades que ainda suscita. Afinal, algumas obras parecem resistir ao encerramento definitivo de seus sentidos: sobrevivem ao seu próprio tempo e continuam a convocar, incessantemente, novos olhares ao seu universo.