COCRIAÇÃO PARTICIPATIVA DE TECNOLOGIAS SOCIAIS PARA A AGRICULTURA FAMILIAR: DESENVOLVIMENTO DE DOIS PROTÓTIPOS DE SENSORIAMENTO E COMUNICAÇÃO RURAL
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Resumo
O projeto SEMEA-TEC é uma iniciativa de extensão universitária que articula computação, eletrônica, sustentabilidade e metodologias participativas para o desenvolvimento de tecnologias sociais voltadas à agricultura familiar. Partindo do entendimento de que a exclusão digital e a baixa disponibilidade de soluções tecnológicas apropriadas aprofundam desigualdades históricas no campo, o projeto busca construir sistemas de baixo custo, baixo consumo energético e alta aderência ao contexto rural, desenvolvidos em diálogo direto com organizações parceiras e agricultores familiares. A proposta se orienta por referenciais da Tecnologia Social, das Epistemologias do Sul e por metodologias de cocriação, compreendendo a comunidade não como receptora passiva de inovação, mas como coprodutora do processo de concepção, teste e validação das soluções. A estratégia metodológica adotada é inspirada no Action Design Research (ADR) e em abordagens participativas de desenvolvimento tecnológico. Antes da definição das soluções, são realizados momentos de escuta ativa, observação situada e diagnóstico participativo junto às organizações parceiras, com o objetivo de compreender práticas já consolidadas, dificuldades cotidianas e demandas prioritárias. Esse movimento orienta a cocriação de protótipos que dialoguem com a experiência dos agricultores, evitando soluções dissociadas da realidade produtiva. Assim, o desenvolvimento tecnológico é concebido como um ciclo iterativo de análise de necessidades, prototipagem, testes em campo e refinamento contínuo, em que o conhecimento técnico e o conhecimento local se complementam. Até o momento, o projeto avançou em dois protótipos principais. O primeiro consiste em um sistema de monitoramento de cercas elétricas para prevenção de invasões de javalis. A principal contribuição do processo de desenvolvimento foi compreender e incorporar referências já presentes no cotidiano dos agricultores, especialmente o uso do voltímetro analógico de cerca, que orientou a concepção do sensor. A solução final baseia-se em um circuito inspirado nesse dispositivo, no qual um capacitor carrega e descarrega em função da presença ou ausência de pulsos na cerca; o microcontrolador lê a tensão desse capacitor e envia ao receptor a informação sobre a condição da cerca. Dessa forma, o sistema traduz a linguagem técnica para uma forma de monitoramento compatível com práticas já conhecidas no território, priorizando simplicidade, robustez e aderência ao contexto de uso. O segundo protótipo é uma estação autônoma de monitoramento ambiental para estufas de cogumelos, desenvolvida para acompanhar variáveis críticas ao cultivo, como temperatura, umidade relativa e concentração de CO2. A solução utiliza uma plataforma ESP32 com comunicação LoRa, sensores para temperatura e umidade, além de sensores de CO2 por infravermelho não dispersivo, buscando operação contínua com elevada autonomia. A alimentação é feita por painel solar e bateria recarregável, em uma arquitetura pensada para cenários de infraestrutura limitada. No backend, os dados são enviados por gateway LoRa para um broker MQTT, processados em fluxos de automação no Node-RED, armazenados em banco de séries temporais e disponibilizados em painéis de visualização em tempo real. O desenvolvimento dos protótipos é realizado em parceria com a organizações da sociedade civil que contribuem com mobilização territorial, apoio logístico e compartilhamento de saberes locais. Essas parcerias são fundamentais para que o processo de inovação se mantenha conectado às dinâmicas reais do território, promovendo uma troca horizontal entre universidade e comunidade. Nesse sentido, o projeto também cumpre função formativa, envolvendo estudantes de graduação da UNIFESP em experiências concretas de aprendizagem situada, integração entre teoria e prática e compromisso com a transformação social. Como resultados parciais, observam-se a viabilidade técnica das soluções, a consolidação de uma abordagem metodológica participativa e o fortalecimento do vínculo entre universidade e agricultores familiares. Mais do que entregar dispositivos, o projeto busca desenvolver autonomia técnica, ampliar a capacidade local de monitoramento e decisão e contribuir para a construção de tecnologias apropriadas às necessidades do campo. Ao combinar comunicação de baixo alcance energético, sensoriamento distribuído e cocriação com comunidades rurais, o SEMEA-TEC aponta para um modelo de inovação descentralizada, socialmente comprometida e ambientalmente responsável. Espera-se, com a continuidade do projeto, ampliar a validação em campo, produzir documentação, realizar oficinas formativas e gerar subsídios para novas aplicações em agricultura familiar, reforçando o papel da extensão universitária como espaço de produção compartilhada de conhecimento e de fortalecimento da soberania tecnológica no meio rural.
