A MEMÓRIA DAS MULHERES NO MASSACRE DE JEJU: O SILÊNCIO E O TRAUMA FEMININO EM SEM DESPEDIDAS (2025), DE HAN KANG
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Resumo
Sem despedidas (2025), de Han Kang, narra a história de Kyungha, uma mulher que viaja de Seul até a ilha de Jeju a pedido de sua amiga, Inseon, que está internada e não pode voltar para casa para alimentar seus pássaros. Diante de um ambiente desconhecido, a protagonista sobe a montanha onde a amiga mora apesar da nevasca. Sozinha no frio, ela começa a romper suas percepções entre o mundo sonhado e o mundo vivido à medida que descobre sobre o Incidente do 3 de Abril de Jeju, um dos períodos mais traumáticos da ilha. A tragédia, que aconteceu de 1947 a 1954 em um contexto de Guerra Fria e que foi provocada pelas autoridades estadunidenses e posteriormente sul-coreanas, deixou milhares de cidadãos mortos ? aproximadamente 1/10 dos habitantes. A partir disso, a personagem principal imerge nas memórias familiares de Inseon, que estão conectadas com o massacre, e entra em contato com o extenso trabalho que a mãe da amiga, Jeongshim, fazia silenciosamente para recuperar informações sobre o desaparecimento do próprio irmão naquele período. Com esse contexto, o objetivo da pesquisa ? parte do segundo capítulo da dissertação em andamento ? é compreender o papel das mulheres na reconstrução da memória do massacre, que por muitas décadas foi silenciado devido aos sucessivos governos autoritários presentes na Coreia do Sul no século XX. Em um país formado das consequências geopolíticas da Guerra Fria, histórias de resistência aos acontecimentos sofreram tentativas de apagamento devido ao discurso anticomunista. Mas, com o uso do olhar metodológico de Leenhardt (1998) sobre a obra literária como uma ressimbolização do simbólico e de Candido (2006) acerca de uma literatura que internaliza manifestações externas, defende-se a hipótese de que Sem despedidas (2025) revela o esforço das mulheres que, tendo sido as principais sobreviventes em um período no qual os homens jovens eram os grandes alvos da perseguição contra potenciais comunistas, trabalharam silenciosamente em prol de honrar as trajetórias de seus familiares. Em lutas que até mesmo seus filhos desconheciam, situação representada no livro por meio da relação distante entre Inseon e Jeongshim, essas mulheres devolveram às vítimas suas histórias. Para explorar o assunto, a pesquisa tem como base obras de Kim Seong Nae (2000; 2013; 2019; 2023), Namhee Lee (2007; 2022), Kim Eunshil (2018); Michele Perrot (1989; 2017), Hun Joon Kim (2014), Susan Sontag (2012), Marc Nichanian (2012), Cathy Caruth (1996), Laurel Kendall (1985). Atravessando diferentes campos de saber, como história, sociologia, antropologia e filosofia, o intuito é traçar conexões que permitem um debate profundo sobre o papel das mulheres para a reconstrução da memória de um período violento, mas sistematicamente negligenciado na elaboração de uma história oficial sobre a Coreia do Sul.
