Congresso UNIFESP 2026
PÓS-GRADUAÇÃO (stricto sensu)LINGÜÍSTICA, LETRAS E ARTESTrabalho #23314

O ROMANCE DE (DES)FORMAÇÃO: RUPTURAS ÉTICO-NARRATIVAS EM CIRANDA DE PEDRA E AS MENINAS, DE LYGIA FAGUNDES TELLES

Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (Guarulhos)
ODS 4ODS 5ODS 10ODS 16

Autores

GUILHERME SANTOS DE LIMA - AUTOR(A)LUIS FERNANDO PRADO TELLES - ORIENTADOR(A)

Resumo

Esta dissertação parte de uma pergunta central: o que acontece com a ideia de formação do sujeito quando as condições históricas que sustentavam a possibilidade de integração entre indivíduo e mundo entram em colapso? Em vez de tomar o romance de formação como modelo universal de amadurecimento, o estudo mobiliza criticamente essa tradição para evidenciar seus limites históricos, estéticos e ideológicos na modernidade tardia. A hipótese que orienta a pesquisa sustenta que o chamado ?fracasso? da formação não constitui uma insuficiência narrativa, mas um gesto crítico inscrito na própria forma literária, que recusa soluções conciliatórias e expõe a instabilidade da experiência moderna. O corpus é composto pelos romances Ciranda de Pedra (1954) e As Meninas (1973), de Lygia Fagundes Telles, cujas narrativas, marcadas pela fragmentação, pela multiplicidade de vozes e pela recusa de desfechos estabilizadores, tensionam diretamente as expectativas tradicionais de desenvolvimento e síntese subjetiva. A análise busca demonstrar que, nessas obras, a formação deixa de operar como percurso progressivo de integração e passa a configurar-se como experiência de crise, deslocamento e desestabilização. Embora o foco central da pesquisa esteja voltado às dimensões éticas, estéticas e formais do romance de (des)formação, reconhece-se que a construção dessas trajetórias é indissociável das tensões históricas e sociais que atravessam a experiência feminina nas narrativas analisadas. Nesse sentido, a dissertação considera que as personagens de Lygia Fagundes Telles evidenciam formas específicas de conflito entre subjetividade, sociabilidade, corpo, desejo e expectativa social, sem reduzir, contudo, a leitura das obras a uma abordagem exclusivamente identitária ou representacional. O sujeito feminino aparece, assim, não como eixo isolado da interpretação, mas como dimensão constitutiva das crises formativas encenadas pelos romances. A fundamentação teórica articula contribuições da teoria do romance, da estética da recepção e da crítica histórica, com destaque para Franco Moretti, Paul Ricoeur, Wolfgang Iser, Hans Robert Jauss e Roberto Schwarz. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa de caráter analítico-interpretativo, com ênfase na leitura formal dos textos, considerando aspectos como focalização, temporalidade, construção das vozes e configuração dos desfechos. Como resultado, propõe-se que a formação, nessas narrativas, não desaparece, mas se desloca: deixa de ser atributo estável da personagem ou modelo teleológico a ser alcançado e passa a emergir como tensão entre texto, experiência histórica e leitura. Desse modo, o sentido não se fixa nem se resolve plenamente, mas se constrói de maneira instável e situada, convocando o leitor a confrontar criticamente seus próprios horizontes de expectativa e suas concepções de subjetividade, formação e pertencimento.