ENTRE A RACIONALIDADE SUBSTANTIVA E A PRÁTICA COLETIVA: DESAFIOS DA AUTOGESTÃO E DA PRÁTICA EXTENSIONISTA NA ASSOCIAÇÃO FRENTE DAS MULHERES DOS PORTAIS D'OESTE II
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Resumo
Este trabalho apresenta os resultados finais de uma pesquisa de iniciação científica e extensão que analisa os desafios da autogestão na economia solidária periférica, tendo como objeto de estudo a Associação Frente das Mulheres dos Portais d?Oeste II, em Osasco. O objetivo central foi investigar como a articulação entre o suporte técnico da universidade (UNIFESP) e a organização popular pode fomentar a geração de renda e a promoção da cidadania em territórios marcados pela vulnerabilidade social e pela exclusão econômica. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa fundamentada na pesquisa-ação e na observação participante, permitindo uma imersão contínua na realidade do grupo entre maio de 2025 e março de 2026. Os procedimentos metodológicos incluíram o acompanhamento presencial de oficinas de corte e costura, reuniões na Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP/UNIFESP) e a realização de entrevistas semiestruturadas com dez integrantes para traçar perfis socioeconômicos e coletar percepções sobre autonomia e renda. No plano teórico, o estudo fundamenta-se na crítica de Alberto Guerreiro Ramos à racionalidade instrumental. Argumenta-se que a sociedade centrada no mercado reduz a razão a um cálculo utilitário, transformando o indivíduo em um mero "detentor de emprego". Em contraposição, busca-se a racionalidade substantiva, que foca na ética, na atualização das potencialidades humanas e no trabalho como valor de uso. Outro conceito chave é a "síndrome comportamentalista", descrita como uma patologia social onde o indivíduo internaliza a submissão hierárquica e a meritocracia, dificultando a transição para modelos de responsabilidade compartilhada. Os resultados evidenciam que a atuação em campo proporcionou uma significativa consolidação produtiva. O grupo executou encomendas de grande porte, como a confecção de 300 ecobags e 50 camisetas para o "Kit Bixo 2026" e o vestuário para o evento "Corre com Oz". Além da produção, foram desenvolvidas ferramentas técnicas de gestão, como um catálogo de produtos e planilhas de precificação e fluxo de caixa, visando dar transparência aos custos e combater a desvalorização do trabalho manual. A análise dos desafios práticos revelou tensões significativas em três frentes: 1. Liderança e Autogoverno: Identificou-se uma sobrecarga histórica na coordenadora local (Sra. Luíza), fruto de uma lógica de heterogestão onde as alunas tendiam a esperar por ordens externas. Contudo, registrou-se um avanço pedagógico onde integrantes mais experientes passaram a assumir responsabilidades de ensino e organização. 2. Gestão Financeira e Conflitos de Remuneração: Emergiu um impasse entre as integrantes antigas, que defendiam a divisão igualitária dos lucros, e as novatas, que pleiteavam ganhos proporcionais à produtividade individual, evidenciando a persistência de lógicas mercantis e individualistas dentro do coletivo. 3. Barreiras Burocráticas e Colonialidade do Poder: O estudo destaca como a exigência de marcos legais rígidos (CNPJ, estatutos) e a dificuldade extrema de abertura de contas bancárias institucionais refletem a colonialidade do poder. Esses modelos jurídicos tradicionais impõem padrões ocidentais que asfixiam e precarizam as formas originais de organização popular na periferia. Nas discussões, defende-se que a economia solidária deve buscar a desmercantilização do trabalho, transformando a costura de uma tarefa repetitiva em um espaço de reconstrução da autoestima e pertencimento comunitário. Conclui-se que a autogestão não é um estado pronto, mas um processo de aprendizagem mediado pela extensão universitária, que exige a superação da servidão psicológica do mercado em favor de uma ação deliberativa e ética. Por fim, o relatório reforça a necessidade de políticas públicas que rompam com o "Estado herdado" (burocrático e neoliberal) e transitem para um "Estado necessário", que valide as práticas de ajuda mútua periféricas sem impor entraves administrativos que geram imobilismo. A experiência reafirma que a geração de renda, quando aliada à autogestão, converte-se em cidadania ativa e emancipação social.
