PANDEMIA COVID: A AFIRMAÇÃO DA ESTRUTURA RACIAL DO ESTADO BRASILEIRO
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Resumo
Entre 2018 e 2023, o Brasil viveu um dos períodos mais dramáticos de sua história recente. A ascensão da extrema direita ao poder, combinada à pandemia de COVID-19, ao aumento da fome e ao aprofundamento da violência policial, produziu um cenário de colapso social e político que atingiu de maneira brutal a população negra brasileira. Este trabalho parte da compreensão de que essa tragédia não foi acidental. Ela expressa a continuidade histórica de um Estado estruturado pelo racismo e organizado pela distribuição desigual da vida e da morte. Nesse contexto, o bolsonarismo não deve ser entendido apenas como um fenômeno eleitoral ou ideológico, mas como a radicalização de uma lógica histórica já presente na sociedade brasileira. Inspirado nas formulações de Achille Mbembe sobre necropolítica, o estudo demonstra como a gestão Bolsonaro aprofundou mecanismos de extermínio, abandono e violência direcionados sobretudo às periferias, favelas, quilombos e territórios negros. A ampliação da letalidade policial, o desmonte de políticas sociais, a sabotagem sanitária durante a pandemia e a naturalização da fome revelaram um projeto de poder baseado na seleção de quais vidas merecem proteção e quais podem ser descartadas. Ao mesmo tempo, a pesquisa sustenta que foi justamente nesse período que o Movimento Negro brasileiro assumiu papel central na defesa da democracia e do direito à vida. Mais do que denunciar a violência, organizações negras construíram respostas concretas diante da crise humanitária e política. O estudo concentra-se especialmente na atuação da Coalizão Negra por Direitos, articulação nacional formada por centenas de organizações negras, periféricas, quilombolas, religiosas, culturais e políticas, surgida em 2019 como resposta ao avanço autoritário. A hipótese central do trabalho é que a Coalizão Negra por Direitos se consolidou como a principal força de resistência popular ao bolsonarismo, articulando luta antirracista, ação humanitária, incidência institucional, mobilização internacional e disputa política. A campanha Tem Gente com Fome, por exemplo, tornou-se uma das maiores iniciativas humanitárias já organizadas pelo Movimento Negro no Brasil, mobilizando milhões de reais, distribuindo alimentos e colocando a fome no centro do debate público nacional. Ao mesmo tempo, a Coalizão protagonizou ações jurídicas e políticas de grande impacto, como a incidência no STF em torno da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, denúncias internacionais na ONU e na OEA, além da articulação do superpedido de impeachment contra Jair Bolsonaro. A pesquisa também argumenta que o Movimento Negro conseguiu estabelecer uma conexão fundamental entre racismo estrutural, democracia, saúde pública e desigualdade social. Durante a pandemia, tornou-se evidente que a morte não atingia todos da mesma forma. Negros e negras compunham a maioria entre os mais pobres, entre os que mais morreram pela COVID-19, entre as vítimas da violência policial e entre aqueles submetidos à insegurança alimentar. Nesse sentido, o trabalho defende que não há possibilidade de democracia real sem enfrentamento do racismo estrutural. Metodologicamente, a pesquisa articula revisão bibliográfica, análise documental, dados estatísticos e entrevistas narrativas com lideranças da Coalizão Negra por Direitos. O estudo mobiliza autores fundamentais do pensamento crítico negro e das teorias da colonialidade, como Lélia Gonzalez, Achille Mbembe e Kimberlé Crenshaw, buscando compreender como raça, classe, gênero e território operam conjuntamente na organização das desigualdades brasileiras. Ao reconstruir a trajetória da resistência negra entre 2018 e 2023, este trabalho busca demonstrar que o Movimento Negro não atuou apenas como força de denúncia, mas como sujeito político capaz de reorganizar o debate democrático no Brasil contemporâneo. A Coalizão Negra por Direitos emerge, assim, como expressão de uma nova etapa da luta antirracista brasileira: uma articulação que transformou luto em mobilização, solidariedade em ação política e defesa da vida em horizonte democrático. Mais do que analisar um período de crise, esta pesquisa procura registrar uma experiência histórica de resistência coletiva. Em um país marcado pela escravidão, pela desigualdade racial e pela violência de Estado, o Movimento Negro reafirmou, mais uma vez, que não há democracia possível enquanto o racismo seguir organizando as estruturas do poder e da vida social no Brasil.
