PLANEJAMENTO E AGÊNCIA MOTORA EM PESSOAS COM LESÃO MEDULAR COM IMPLANTES NEUROMODULADORES NAS RAÍZES DOS NERVOS LOMBOSSACRAIS
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Resumo
A lesão medular compromete a comunicação bidirecional entre encéfalo, medula e sistema nervoso periférico, afetando tanto a propagação de comandos motores descendentes quanto aferências sensoriais. Essa interrupção do loop sensório-motor resulta em déficits motores, sensitivos e autonômicos, além de possíveis repercussões sobre planejamento motor, predição de movimento, agência motora, comprometendo a percepção sobre o controle dos próprios movimentos, e funções cognitivas executivas. Diversos trabalhos vêm mostrando que técnicas de estimulação elétrica neuromuscular induzem atividade cortical em áreas sensoriomotoras, podendo auxiliar na melhora perceptiva e executiva motora de pessoas com baixa mobilidade, como lesão medular. A técnica LION, Laparoscopic Implantation Of Neuroprosthesis, consiste na implantação laparoscópica de eletrodos sobre nervos periféricos da região pélvica, incluindo os nervos pudendo, ciático e femoral. Essa abordagem tem demonstrado melhora de funções autonômicas, ganho de mobilidade e relatos de recuperação sensorial em pessoas com lesão medular. Resultados prévios do nosso grupo, obtidos em análise transversal, indicaram diferenças estatísticas em características covariantes eletrofisiológicas corticais por eletroencefalografia (EEG) entre indivíduos hígidos, pessoas com lesão medular sem implante LION e pessoas com lesão medular implantadas com LION. Como essas características refletem sincronizações entre regiões corticais, os achados sugerem diferenças nos padrões de conectividade funcional durante o planejamento e a execução motora. Estudos anteriores do grupo também evidenciaram respostas corticais a estímulos sensoriais abaixo do nível da lesão, indicando que aferências preservadas ou moduladas pela estimulação periférica podem ser registradas por EEG. Este projeto propõe um protocolo longitudinal para investigar marcadores eletrofisiológicos associados ao planejamento motor, à predição de movimento e à agência motora em três grupos, indivíduos hígidos, pessoas com lesão medular sem implante LION e pessoas com lesão medular implantadas com LION após reabilitação de longo prazo. Em ambiente virtual, os voluntários deverão prever a trajetória de uma bola que se desloca em direção às pernas de um avatar em primeira pessoa. A partir de uma Interface Cérebro-Máquina (ICM), controlarão as pernas do avatar por imagética motora, visando chutar ou interceptar a bola. O controle será baseado em quatro padrões eletroencefalográficos, atividade basal, chute com a perna esquerda, chute com a perna direita e chute com as duas pernas. Como o controle por ICM depende de treino, serão realizadas sessões repetidas de predição e captura de objeto por pensamento motor. O setup já está estruturado, com 16 eletrodos de EEG posicionados sobre o escalpo em regiões convencionadas para registrar os córtices motor primário, pré-motor e somatossensorial pelo sistema 10-10. As análises serão concentradas em oscilações mu e beta entre 8 e 30 Hz e em covariâncias entre canais. Análises offline com bases abertas massivas de EEG já compararam pipelines de decodificação, indicando uma abordagem baseada em covariâncias e SVM não linear. A hipótese central é que o uso sistemático do LION, associado à reabilitação acompanhada, induz melhora progressiva no fluxo de informação aferente. Essa melhora pode favorecer a percepção sensorial do ambiente e aprimorar planejamento e execução motora. Espera-se que essas diferenças apareçam nos padrões de EEG, permitindo avaliar quantitativamente diferenças neurofisiológicas e neurocognitivas entre os grupos.
