RAINHAS E MECENAS: A LEGITIMAÇÃO DO PODER POR MEIO DA ARTE
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Resumo
Quando estudamos a construção da imagem de poder dos reis e imperadores, nos apoiamos em retratos, esculturas, gravuras, ou qualquer representação que nos ajude a ilustrar este personagem. E terminamos por esquecer da relevância que os retratos femininos carregam e quase nunca paramos para analisar a importância das mulheres em posições de poder. Em minha pesquisa intitulada ?Dama de Honore e Maestra de Pittura de la Regina: a (anônima) leitura imagética de Sofonisba Anguissola sobre a corte espanhola de Felipe II?, estudo os retratos feitos pela pintora italiana Sofonisba Anguissola no período em que esteve na corte espanhola de Felipe II (entre 1559 e 1573). Além dos retratos de Isabel de Valois e Ana de Áustria, terceira e quarta esposa de Felipe II, encontrei-me com o valor do papel das mulheres da dinastia Habsburgo na política e nas artes. Elas foram - além de infantas, rainhas ou governadoras - mecenas e patrocinadoras da arte em seu tempo e souberam usar muito bem o talento dos artistas dos quais se rodearam para ajudá-las a construir uma imagem de poder, não sendo apenas, esposas, filhas ou irmãs ?de?. Estudando os retratos de Isabel de Valois e de Ana de Áustria, esposas de Felipe II, filho de Carlos V, passei por anteriores gerações de mulheres Habsburgo que não apenas cumpriram seu papel dentro do cenário cortesão, mas também foram além, conquistando espaço e importância num contexto masculino, sendo responsáveis em grande medida pelo processo de internacionalização da monarquia espanhola, uma vez que com obras encomendadas a Ticiano ou Rubens, por exemplo, elas tiveram por objetivo representar a autoridade da dinastia, ilustrando vitórias em batalhas, eternizando familiares e fazendo-se retratar de forma a compor o mais estreito círculo de autoridade das conquistas territoriais dos Habsburgo que escreveram seus nomes na história entre os séculos XIII e XX. Por meio de matrimônios que sustentaram conexões políticas, estas mulheres como Isabel I de Castela, a rainha católica (e avó de Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico), Maria de Hungria, rainha da Hungria e Bohemia ou mesmo Isabel Clara Eugenia, governadora dos Países Baixos (e filha de Felipe II), ajudaram a compor um dos museus mais visitados da Europa: o Museu do Prado, em Madrid. Graças a um estudo que vem sendo realizado, a direção do museu decidiu criar um ciclo de conferências intitulado ?El Prado en Femenino?, que nos traz a reivindicação do papel destas mulheres não somente na História da Arte, mas também na criação da coleção deste museu, evidenciando o peso das decisões destas mulheres em posição de poder ao ter que escolher que obras encomendar, adquirir ou quais artistas contratar. Um exemplo é que graças ao mecenato de Isabel Clara Eugenia, já citada brevemente, é que o museu espanhol possui o maior acervo de Peter Paul Rubens. Outro exemplo é que graças a Maria de Hungria o Prado hoje conserva em seu acervo duas das quatro telas que compõem ?As Fúrias? de autoria de Ticiano. E como se fosse pouco, ela também foi a responsável pela construção da imagem de identidade política de seu irmão, Carlos V, uma vez que encomenda o conhecido ?Retrato Equestre de Carlos V?, das mãos de Ticiano. Isabel Clara Eugenia é outro exemplo de uma Habsburgo que desempenhou um papel de peso na política e na arte. Como ela se casa com Alberto de Áustria, vai morar em Flandres e tem um intenso contato com artistas flamencos, entre eles, Peter Paul Rubens. Devido ao mecenato que ela estabelece promovendo a arte de Rubens, Isabel termina por influenciar a Felipe IV o qual se encanta com o talento do pintor flamenco e inclusive termina por nomeá-lo cavaleiro. O objetivo desta apresentação é dar a conhecer a importância destas mulheres que comumente são recordadas por terem sido esposas, filhas ou irmãs de personagens marcantes da história, contudo, faz-se necessário reconhecer a relevância da legitimação feminina no exercício do poder, poder este que lhes coube assumir.
