SEPSE DE FOCO PULMONAR NO TRANSPLANTE RENAL: CARACTERIZAÇÃO CLÍNICA, DESFECHOS E FATORES DE RISCO PARA ÓBITO.
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Resumo
Introdução: Os receptores de transplante de rim (RTR) podem evoluir com quadros infecciosos mais graves, como a sepse, tanto pelo acúmulo de comorbidades quanto pelo uso inevitável de imunossupressão. Dados epidemiológicos de nosso centro mostram que, isoladamente, a sepse de foco pulmonar é a principal causa de óbitos em RTR. Objetivo: caracterizar a sepse de foco pulmonar em RTR, mensurar os seus desfechos e os fatores associados com o risco de óbito. Metodologia: coorte retrospectiva com RTR admitidos na UTI do Hospital do Rim por sepse entre 2016 e 2023. Tempo de acompanhamento: 3 meses após admissão na UTI. Desfechos intermediários: injúria renal aguda (IRA), necessidade de terapia renal substitutiva (TRS), amina vasoativa (AVA) e ventilação mecânica (VM). Desfecho principal: óbito, mensurado por Kaplan-Meier e comparado com Logrank. Fatores de risco para óbito: regressão de Cox. Resultados: Dos 509 pacientes admitidos por sepse na UTI no período, 179 (35,2%) tinham foco pulmonar. Em comparação com os RTR com sepse de foco não pulmonar, não houve diferença quanto a idade (59,0 vs. 60,0 anos, p=0,61), cor de pele (brancos, 69,5 vs. 65,5%, p=0,92), diabetes como etiologia da doença renal crônica (27,3 vs. 22,5%, p=0,23), tipo de doador (falecido, 70,4 vs. 67,1%, p= 0,44), imunossupressão de base (tacrolimo micofenolato, 40,2 vs. 37,0%, p=0,47), tempo de transplante (6,2 vs. 7,2 anos, p=0,45), carga de comorbidades (Charlson, 5,0 vs. 5,0, p=0,16) e taxa de filtração glomerular basal (TFG, 35,1 vs. 37,1 ml/min/1,73m2, p=0,22). À admissão na UTI, também não houve diferença quanto ao SOFA (5,0 vs. 5,0 pontos, p=0,91), lactato (12,0 vs. 12,7 mg/dl, p=0,27) e TFG (21,0 vs. 20,4 ml/min/1,73m2, p=0,22). Entretanto, os de foco pulmonar tinham SAPSIII (57,0 vs. 54,0 pontos, p=0,01) e PAM (90,0 vs. 78,5 mmHg, p<0,001) mais elevadas e menores valores de PaO2/FiO2 (278 vs. 371 mmHg/%, p<0,001). Nos desfechos intermediários, não houve diferenças quanto à incidência de IRA (82,1 vs. 83,3%, p=0,91) e necessidade de AVA (55,3 vs. 51,5%, p=0,41), mas os RTR com foco pulmonar com mais frequência necessitaram de TRS (43,8 vs. 32,1%, p=0,009) e de VM (50,8 vs. 30,6%, p<0,001). A sobrevida do paciente 3 meses após a admissão na UTI foi menor nos RTR com sepse pulmonar: 48,0 vs. 60,5%, HR = 1,47, IC95% = 1,13 ? 1,93, p=0,004. As variáveis associadas com o risco de óbito entre aqueles admitidos na UTI com sepse pulmonar foram: doença renal crônica por diabetes (HR=1,95; IC95%=1,07-3,56, p=0,03) e PAM (HR=0,98, IC95%=0,97-0,99, p=0,03), lactato (HR=1,03, IC95%=1,02-1,04, p<0,001) e TFG (HR=1,02; IC95%=1,00-1,03, p=0,03) à admissão à UTI. Conclusão: a sepse de foco pulmonar está associada à evolução mais grave e à menor chance de sobrevivência em RTR, quando comparada com outros focos de infecção. Nesses pacientes, o risco de óbito está associado com o tipo de DRC e a função renal, a condição hemodinâmica e ventilatória à admissão na UTI.
